Existem paragens no mundo que não se descrevem bem de terra. É preciso chegar pelo mar — com o barco a abrandar, as velas a descer e a enseada a abrir-se à frente — para perceber porque é que as Antilhas Menores têm aquele efeito nas pessoas. A água não é apenas turquesa: é uma transparência activa, uma luminosidade que vem de baixo para cima, como se o fundo de areia branca fosse uma fonte de luz. As ilhas aparecem sempre devagar, primeiro como uma sombra no horizonte, depois como uma forma, depois como um lugar. E cada uma é diferente da anterior — diferente na cor, no cheiro, no ritmo, no que se come e no que se ouve à noite.
Este roteiro de oito dias parte de Anse Marcel, em Saint-Martin, e percorre um arquipélago espalhado entre o Atlântico e o mar das Caraíbas: a selvagem Tintamarre, a tranquila Île Fourchue, o glamour descontraído de São Bartolomeu, as praias quase desertas de Anguilla e os restaurantes de Grand Case, capital gastronómica das Antilhas. São cerca de 80 milhas no total — passagens curtas, ancoragens longas, dias que passam devagar.
Saint-Martin — O Porto de Partida e Duas Culturas numa Só Ilha

O embarque acontece ao final da tarde em Anse Marcel, na marina de Lonvilliers — um recanto protegido no norte francês da ilha que parece desenhado para começar viagens assim. O cocktail de boas-vindas faz as apresentações enquanto o skipper explica o plano: as escalas, as distâncias, as regras a bordo. A noite é calma, ancorada ali mesmo, com o som das palmeiras a fechar o dia.
Saint-Martin é uma curiosidade geográfica e política: a ilha partilha o mesmo território entre França e os Países Baixos desde 1648, sem fronteira visível entre os dois lados. Do lado francês, a gastronomia é levada a sério — Grand Case, no norte, é considerada a capital gastronómica das Antilhas, e as suas lolos (pequenos restaurantes de rua) servem lagosta grelhada e accras de bacalhau com uma informalidade que contrasta deliciosamente com a qualidade do que se come.
Tintamarre e Île Fourchue — O Arquipélago Selvagem

A segunda manhã começa com rumo a Tintamarre — cem hectares de ilha desabitada a nordeste de Saint-Martin, integrada na sua Reserva Natural. Não há restaurantes, não há hotéis, não há carros: há trilhos que atravessam a vegetação rasteira e chegam a uma antiga plantação de algodão do século XIX, aos vestígios de uma linha de carris e até a uma pista de aterragem que o tempo deixou crescer por dentro. É um daqueles lugares que provam que a natureza é sempre mais persistente do que a presença humana.
À tarde, o barco muda de ancoragem para Île Fourchue — também chamada Île Fourche — uma ilha desabitada a oeste de Saint-Martin com uma baía abrigada perfeita para snorkel. A água é tão transparente que os peixes de cores parecem suspensos no ar. As tartarugas aparecem com alguma regularidade perto da orla, e quem tiver pernas para a caminhada ao longo das falésia é recompensado com uma vista sobre São Bartolomeu que ainda não tem nome adequado em português.
São Bartolomeu — A Anse de Colombier e o Segredo Mais Bem Guardado da Ilha

São quarenta e cinco minutos de navegação de Île Fourchue até à ponta ocidental de São Bartolomeu, e a Anse de Colombier aparece de forma tão perfeita — areia branca, água verde-esmeralda, colinas verdes por cima — que se percebe imediatamente porque os veleiros ficam aqui ancorados mais tempo do que o planeado. Não há estrada que chegue à enseada; apenas um trilho a pé ou a chegada pelo mar. Esta inacessibilidade é exactamente o que a preserva.
O snorkel nesta enseada é de uma riqueza que surpreende mesmo quem vem de outros mares. Tartarugas marinhas frequentam a zona, os peixes-papagaio aparecem nos recifes e a visibilidade é normalmente de vinte metros ou mais. À tarde, quem quiser subir ao pequeno morro que fecha a enseada a norte tem uma recompensa à altura: a ilha toda de um lado, o Atlântico do outro, e o barco lá em baixo que parece um brinquedo.
Gustavia — Glamour a Sério e História a Contar

Gustavia é uma das capitais mais peculiares do Caribe. Descoberta por Cristóvão Colombo em 1493 — que a baptizou em honra do seu irmão Bartolomeu — a ilha foi colónia sueca durante quase um século antes de regressar à França em 1878. O nome da capital ficou sueco, os edifícios ficaram caribenhos, o estilo ficou francês e o resultado é uma mistura que não existe em nenhum outro lugar.
O passeio pela cidade começa no porto — onde iates de todos os tamanhos se acomodam lado a lado com barcos de pescadores — e sobe pelo Fort Karl e pelo farol de Gustavia, que tem uma das melhores vistas da ilha. Para quem prefere explorar ao ritmo próprio, as bicicletas de aluguer são uma excelente opção: São Bartolomeu é pequena o suficiente para dar a volta em menos de metade do dia. À tarde, o barco regressa à tranquilidade de Colombier para o jantar e a noite.
Pinel e Anguilla — As Praias que Pertencem ao Paraíso

A Ilhota de Pinel, a alguns minutos de Saint-Martin, é daqueles lugares que parecem existir fora do tempo real. A proibição de pesca e de desportos náuticos motorizados preservou os seus fundos marinhos de uma forma que se nota a olho nu mal se mergulha a cabeça — o coral cresce, os peixes são muitos e as cores são as que se esperam de um Caribe que não foi perturbado. A volta a pé pelo ilhéu leva menos de meia hora mas produz paisagens que ficam na câmara por muito tempo.
O skipper larga à tarde para Anguilla, uma ilha britânica de ultramar com uma reputação de praias que ultrapassa em muito a sua dimensão. Rendez Vous Bay — onde se ancora — é uma das ancoragens mais bonitas de todo o roteiro: longa, aberta, com areia tão branca que parece neve e água que muda de cor consoante a profundidade. A noite a bordo, ali, com o céu estrelado das Antilhas por cima, é difícil de comparar com qualquer coisa.
Crocus Bay, Prickly Pear e o Regresso a Saint-Martin
A manhã em Anguilla tem mais uma ancoragem a explorar: Crocus Bay, na costa norte, com uma aldeia de pescadores que acorda devagar e uma água que faz com que seja difícil sair de lá. Depois, o barco segue para Prickly Pear — dois ilhéus desabitados com recifes de coral que albergam peixe-papagaio, peixes-anjo e, com alguma sorte, tartarugas marinhas. O kayak ao longo da costa, por entre as rochas e a vegetação que chega à água, é uma das actividades mais silenciosas e mais bonitas do roteiro.
O regresso a Saint-Martin faz-se com paragem na Friar’s Bay — uma baía abrigada com um bar de praia que serve rum punch e olha para o mar com a calma de quem não tem pressa de ir a lado nenhum. É o tipo de lugar onde o plano de “uma bebida antes do jantar” se estende habitualmente por duas ou três horas.
Grand Case — A Capital Gastronómica das Antilhas

A penúltima noite passa-se em Grand Case — e quem gosta de comer bem vai perceber rapidamente porque é que esta aldeia tem a reputação que tem. A rua principal é bordejada por casas coloniais pintadas em cores que parecem escolhidas por um pintor entusiasta, e as lolos — os churrascos de rua — servem ao anoitecer lagosta, camarão e peixe grelhado directamente sobre carvão, com batata-doce e arroz de feijão, a um preço que não tem correspondência com a qualidade do que se come. Para quem prefere restaurante sentado, as opções de cozinha francesa e criolla são igualmente sérias.
De manhã, antes do regresso, há ainda a Reserva Natural da ilha e uma paragem no Rocher Créole — um sítio de mergulho e snorkel protegido, acessível e com uma riqueza subaquática que fecha o roteiro de forma irrecusável. Trinta minutos de navegação depois, Anse Marcel recebe o barco de volta para o último pequeno-almoço a bordo.
Roteiro Dia a Dia
Dia 1 — Anse Marcel (Saint-Martin): Embarque
Encontro às 18h na marina de Lonvilliers, no fundo de Anse Marcel. Depois de se instalar a bordo, a tripulação apresenta-se ao som de um cocktail de boas-vindas. O skipper explica o roteiro, as escalas e as regras de segurança. Jantar e pernoita a bordo em Anse Marcel.
Dia 2 — Tintamarre → Île Fourchue (cerca de 4 horas de navegação)
Depois do pequeno-almoço, parte-se para Tintamarre. Esta ilha de cem hectares, hoje desabitada, fica a nordeste de Saint-Martin e faz parte da sua Reserva Natural. Os trilhos que a atravessam levam a uma antiga plantação de algodão do século XIX, a uma linha de carris e até a uma pista de aterragem. Depois, rumo a Île Fourchue: a baía abrigada é perfeita para snorkel com peixe colorido e tartarugas. Uma caminhada pelas falésia oferece uma vista notável sobre São Bartolomeu.
Dia 3 — Île Fourchue → Anse de Colombier, São Bartolomeu (cerca de 45 minutos)
Parte-se para a ilha de São Bartolomeu e ancora-se na Anse de Colombier, na ponta ocidental da ilha. É o lugar ideal para relaxar na praia de areia branca e fazer snorkel em águas transparentes, com muitas espécies de peixes e a possibilidade de avistar tartarugas. À tarde, uma subida ao pequeno morro oferece uma vista panorâmica sobre a enseada. Pernoita fundeado.
Dia 4 — Anse de Colombier → Gustavia → Anse de Colombier (cerca de 1 hora)
De manhã, levanta-se ancora para descobrir a bela ilha de São Bartolomeu. Paragem em Gustavia — a capital — para o dia. Passeio pelo porto, visita ao Forte Karl e ao farol de Gustavia. Opção de alugar bicicletas para explorar a ilha ao próprio ritmo. À tarde, regresso à Anse de Colombier para o jantar e pernoita.
Dia 5 — Anse de Colombier → Pinel → Rendez Vous Bay, Anguilla (cerca de 4h30)
Depois do pequeno-almoço, parte-se para a paradisíaca Ilhota de Pinel: água turquesa, areia branca, fundos marinhos preservados graças à proibição de pesca e desportos motorizados. Caminhada pelo ilhéu com paisagens deslumbrantes. À tarde, o skipper parte para Anguilla e ancora em Rendez Vous Bay, uma das enseadas mais belas da ilha. Jantar e pernoita a bordo.
Dia 6 — Rendez Vous Bay → Crocus Bay → Prickly Pear → Friar’s Bay, Saint-Martin (cerca de 3 horas)
Depois do pequeno-almoço, rumo a Crocus Bay para mais uma ancoragem de Anguilla. Depois, a Prickly Pear para explorar os recifes de coral, avistar peixe-papagaio e, com sorte, tartarugas. Opção de kayak ao longo da costa intocada. Início do regresso com paragem nocturna em Friar’s Bay, Saint-Martin.
Dia 7 — Friar’s Bay → Rocher Créole → Grand Case, Saint-Martin (cerca de 1 hora)
Manhã em Friar’s Bay com passeio na praia e natação a partir do barco. Depois do almoço, visita à reserva natural da ilha e paragem no Rocher Créole — um sítio de mergulho e snorkel protegido, acessível e de grande riqueza. Pernoita em Grand Case, a aldeia considerada a capital gastronómica das Antilhas, com as suas casas tradicionais coloridas e as famosas lolos de rua.
Dia 8 — Grand Case → Anse Marcel (cerca de 30 minutos): Desembarque
Última navegação até à marina de Lonvilliers. O desembarque está previsto depois do pequeno-almoço, por volta das 10h. Despedida da tripulação — e o Caribe já começa a fazer falta antes mesmo de se sair do cais.
Informações Práticas
Melhor época
De dezembro a abril é a época de ouro das Antilhas Menores — clima seco, alísios regulares, mar calmo e temperatura ideal. Maio a julho ainda oferece boas condições, com menos tráfego nas ancoragens. De agosto a novembro é a época de ciclones: tecnicamente possível velejar, mas é necessário acompanhar de perto os boletins meteorológicos e estar preparado para alterar planos rapidamente. Dezembro e janeiro são os meses mais disputados, sobretudo em São Bartolomeu — reservar com muita antecedência é essencial.
Ventos dominantes
Os alísios de nordeste (NE/ENE) sopram com notável regularidade entre dezembro e maio, geralmente entre 15 e 25 nós, tornando as passagens entre ilhas confortáveis e previsíveis. Este vento, que os locais conhecem como Alizé, é o motor natural do roteiro — chega cedo, força de través ou de popa na maioria das passagens, e abranda ao anoitecer. Em época de ciclones (agosto-outubro), o padrão muda completamente e as perturbações tropicais podem desenvolver-se com rapidez. O aplicativo Windy e a meteorologia local da estação de Météo France para as Antilhas são as referências habituais a bordo.
Marinas e ancoragens
Anse Marcel / Marina de Lonvilliers — base de saída e chegada; marina protegida com bons serviços. Tintamarre — ancoragem a sul da ilha; fundo de areia, bem abrigada com vento de NE. Île Fourchue — baía interior, fundo de areia; excelente abrigo e boa ancoragem para a noite. Anse de Colombier, St-Barth — ancoragem natural sem pontão; fundo de areia, capacidade limitada em época alta — chegar cedo. Gustavia — porto com pontões e amarração de espera; muito frequentado, verificar disponibilidade. Ilhota de Pinel — ancoragem diurna apenas; bóias disponíveis. Rendez Vous Bay, Anguilla — ancoragem a sul; fundo de areia, bem abrigada. Crocus Bay, Anguilla — ancoragem de longo curso; serviços de terra próximos. Friar’s Bay, Saint-Martin — ancoragem tranquila, fundo de areia; bar de praia. Grand Case, Saint-Martin — ancoragem em frente à praia; acesso a pé à rua principal e aos restaurantes.
Gastronomia a bordo e em terra
As Antilhas Menores francesas têm uma cozinha que mistura influências africanas, creoulas e francesas com ingredientes locais que se encontram nos mercados das ilhas. O peixe fresco é inevitável — mahi-mahi, wahoo, espadarte. Os accras de bacalhau são a entrada de eleição. A lagosta grelhada nas lolos de Grand Case é um ritual que deve ser vivido pelo menos uma vez. A bordo, a compra de fruta e legumes nos mercados de Saint-Martin — especialmente do lado francês — abastece o barco para vários dias de comida fresca. O rum agrícola da Martinica é o souvenir líquido obrigatório.
Coordenadas Principais do Roteiro
| Local | Lat / Lon | Observação |
|---|---|---|
| Marina de Lonvilliers, Anse Marcel | 18°07.5’N / 063°02.8’W | Base de saída e chegada; marina protegida |
| Tintamarre — ancoragem sul | 18°07.8’N / 062°59.5’W | Ilha desabitada; Reserva Natural de Saint-Martin |
| Île Fourchue — baía interior | 17°58.5’N / 062°59.8’W | Boa ancoragem; snorkel e tartarugas |
| Anse de Colombier, St-Barth | 17°55.8’N / 062°51.8’W | Ancoragem sem pontão; chegar cedo em época alta |
| Gustavia, St-Barth | 17°54.5’N / 062°51.0’W | Porto com pontões; muito frequentado |
| Ilhota de Pinel, Saint-Martin | 18°05.2’N / 063°01.5’W | Ancoragem diurna; fundos preservados |
| Rendez Vous Bay, Anguilla | 18°10.0’N / 063°06.5’W | Ancoragem bonita; areia branca |
| Crocus Bay, Anguilla | 18°12.0’N / 063°04.5’W | Ancoragem de longo curso; serviços próximos |
| Prickly Pear, Anguilla | 18°15.5’N / 063°10.5’W | Recifes de coral; snorkel e kayak |
| Friar’s Bay, Saint-Martin | 18°05.8’N / 063°06.2’W | Ancoragem tranquila; bar de praia |
| Rocher Créole, Saint-Martin | 18°06.5’N / 063°05.8’W | Sítio de mergulho e snorkel protegido |
| Grand Case, Saint-Martin | 18°06.2’N / 063°03.0’W | Capital gastronómica; lolos de rua imperdíveis |








