Contando Minha Participacao da Refeno 2018

Velejar 10 outubro de 2018

Autor: Andrea Ciccotti

Participar da mais importante regata da América Latina já é, por si só, uma grande emoção. Ainda mais quando se trata de um 'gringo' como eu, morando há um tempo no Brasil, mas acostumado ao mundo da vela europeia, bem como a navegar no Mediterrâneo e Caribe.

Certamente, conhecer o universo das regatas de longo alcance da vela brasileira foi uma experiência gratificante e de forte aprendizado.

A Recife - Fernando de Noronha é uma regata de aproximadamente 300 milhas, disputada todos os anos. Em 2018 tratou-se da 30º edição, alcançando um número recorde de presenças de embarcações brasileiras e estrangeiras.

Além da competição, uma das atrações mais interessantes é o lugar da chegada. Fernando de Noronha é uma ilha no meio do Atlântico,ímpar pela beleza e diversidade de espécies marinhas, sendo severamente protegida por leis ambientais.

A chegada de veleiro na ilha é liberada somente no caso de regata. Fora isso, somente com o pagamento de uma taxa que desencoraja muitos velejadores.

Neste ano, 61 embarcações se inscreveram na Refeno, representando um aumento de 25% se comparado às últimas edições. No entanto, somente 54 chegaram a Fernando de Noronha. Duas foram rebocadas para Natal, enquanto outras três ligaram o motor por problemas técnicos.

Quando cheguei no Cabanga Iate Clube de Recife, alguns dias antes da largada, a atmosfera já estava eletrizante. O nosso barco, o Yara III, um monocasco de aço de 41 pês, projeto Multischine, já estava lá há duas semanas.

O barco, de propriedade do Élio, teve como ponto de partida a cidade de Paraty, fazendo uma longa viagem com diferentes tripulantes. Seu companheiro sempre a bordo, desde o início, foi o Raphael, ótimo velejador e excepcional no tocante à manutenção do barco. Aliás, posso afirmar que ele praticamente corrigiu boa parte dos problemas que a embarcação teve.

Eu, particularmente, participei de uma das pernas, a Arraial do Cabo - Vitoria. Nesse embarque, a bolina retrátil estava travada em posição retraída, o VHF não estava funcionando, e o motor possuía vários problemas, dentre outras coisas.

O problema da bolina foi resolvido lá mesmo em Arraial. Tratava-se do cabo de acionamento de mecanismo, sendo necessário mergulhar de cilindro, e inventando, o Raphael, uma engenhosa maneira de cortá-lo.

Durante a navegação, não demorou muito para perceber que o barco tinha uma grande tendência a orçar, o que, com muita dificuldade, conseguia-se compensar com o leme.

Mas voltamos aos preparativos da largada da regata em Recife.

O dono do barco tinha tomado a decisão de me deixar no comando, por ser o mais experiente.

Com a chegada dos últimos dois tripulantes, o Bruno e o Cláudio,  passamos os dias consertando a longa lista dos itens que faltavam: equipamentos e controles de segurança, rádio, escotas, extintores, motor, motor de popa do bote, dentre outros.

Infelizmente, não tivemos tempo de regular a mastreação para diminuir a tendência do barco a orçar (para quem quer conhecer a técnica, eis um post meu: Mastreação:Como obter um barco estável regulando-a ). Essa, com certeza, foi a principal causa dos problemas que tivemos durante a regata.

Durante o tempo livre das manutenções, assistíamos a interessantes palestras apresentadas pelo pessoal do Cabanga para nós. Com destaque, um mini curso de segurança, onde tivemos também a rara oportunidade de abrir uma balsa de salvamento, e até de experimentar as rações de sobrevivência que se encontram nela. Parabéns a todos os palestrantes! Realmente, o nível de conhecimento e a capacidade didática foram altíssimos!

As noites, obviamente, eram dedicadas a chopes e intermináveis conversas sobre vela, no píer ou a bordo de alguma embarcação.

Na sexta- feira, finalmente, saímos para testar o barco, os procedimentos de segurança e adaptar a tripulação a trabalhar em conjunto. Umas dezenas de cambadas foram suficientes, e a harmonia a bordo já estava estabelecida por completo. Todos com muita vontade de fazer sua parte e dar o melhor de si. Eu, particularmente, já nesse primeiro encontro, fiquei com a prazerosa sensação de que com aquela tripulação iria dar certo.

Estressei bastante acerca do conceito de segurança, com um briefing inicial, no qual repassei todos os possíveis procedimentos de segurança. Durante toda a minha carreira de skipper, sempre dei muita atenção a este momento e nunca me arrependi. Creio que devido a isso tenha evitado muitas situações desagradáveis ao longo desses anos.

Sugiro que os comandantes façam isso sempre, mesmo em se tratando de uma tripulação conhecida. Trata-se de um momento mágico, no qual o capitão coloca em prática a primeira ordem: 'todos no cockpit para o briefing!'. Os tripulantes interagem, tiram as dúvidas, julgam e pesam sua atitude de comando antes mesmo de navegar. De outro lado, você estabelece as regras, com firmeza e com atenção às necessidades e capacidades de cada um. Começo sempre com uma frase: 'Sou o comandante e minha responsabilidade é antes de tudo a segurança da tripulação'. Isso estabelece meus deveres e também me atribui toda a autoridade necessária. Ninguém irá lhe obedecer em momentos críticos se não tiver a convicção de que o capitão conhece seus deveres e preza, antes de tudo, pela segurança dos tripulantes.

Chegou, finalmente, o dia 29 de setembro, dia da largada.

A Refeno não é uma regata particularmente competitiva, mas, mesmo assim, muitos têm vontade de alcançar uma boa classificação.

Nós estávamos inscritos na categoria aço, competindo com o Kat da família Schürmann (100 pês com dois mastros) e o Endurance do Alejandro Gervilla (64 pês de alumínio). Sem chance praticamente! Nosso objetivo era participar chegando mais ou menos inteiros e com um tempo não tão vergonhoso. A primeira coisa conseguimos. A segunda depende do ponto de vista de cada um. Checando a previsão do vento, minha expectativa era chegar em menos de 60 horas. Demoramos algumas horas a mais. Talvez tenha subestimado a capacidade do barco de manter o rumo sob efeito de rajadas e ondas.

A largada foi emocionante, como costumam ser as das regatas. Trinta minutos antes, os barcos têm que desfilar paralelos à beira para que sejam admirados pelos expectadores de Recife. Emocionante! Geralmente isso não costuma acontecer nas regatas, uma vez que a linha de largada normalmente se encontra longe da costa e do público.

Sinal dos quatro minutos e se desligam os motores. Para quem quiser terminar a regata, nada de virar a chave até Noronha! Muitas embarcações virando e cambando, a poucos centímetros umas das outras. Adrenalina ao máximo para sair em uma boa posição, sem passar da linha antes do sinal de largada.

Largamos até bem, mas já nos primeiros minutos a superioridade da maioria dos outros barcos foi evidente. Foi nesse momento que pensei que o Élio poderia ter inscrito o Yara III em outra classe com opositores um pouco mais fáceis ....mas tudo bem. Somente o Kabode,  um outro monocasco de aço do nosso mesmo tamanho, ficou para trás. Mais tarde ele se retirou da regata por problemas técnicos.

Com a exclusão de uma passagem em uma bóia a uma milha de Recife, o percurso da Refeno é livre. Não tem muito segredo. Uma reta só de 300 milhas com rota de 30 grãos e vento de Sudeste. Vento praticamente ao traves. Onda também estava prevista ao traves. No primeiro dia, apenas 1,5 metro, mas nos dias seguintes chegando até 3 metros com vento de 18 nós.

Sendo que previ derivar para Nord Oeste, pelo menos entre meio e um nó por hora, não fizemos rota diretamente para Noronha, mas para um ponto a 20 milhas ao leste da ilha. Com a intenção de calcular a corrente e deriva depois do primeiro dia e eventualmente ajustar o rumo. A última coisa que queria era passar a Oeste de Noronha e ter que fazer um bordo, com uma tripulação cansada, um barco naquelas condições e no meio de ondas de três metros!

Considerando que não tínhamos piloto automático, organizei os turnos no leme. Ou melhor, um piloto tínhamos: um Autohelm 2000 elétrico. Para ativá-lo era necessário montar a barra do leme, instalá-lo e 'mergulhar' com a cabeça no porão para desconectar manualmente a roda do leme tirando um pino. Operação tanto perigosa quanto inútil, porquanto aquele piloto não iria conseguir pôr no rumo um barco de aço de 20 toneladas com aquelas ondas ao traves.

De dia os turnos eram deixados bastante livres à iniciativa de cada um. Mas, a partir das 19 horas até as 7 horas da manhã, foi utilizado um sistema dos turnos escalonados. Na prática, sempre dois tripulantes no cockpit com turnos de duas horas, mas escalonados, ou seja,  cada hora uma troca. Isso permite quebrar a monotonia, bem como ter dois companheiros para cada turno.

As primeiras 24 horas foram tranquilas, com um vento que estimo (não tínhamos anemômetro para medir) em, no máximo, de 15 nós.

Mas com o passar do tempo e o aumento do vento, ficou evidente que a tendência do barco a orçar também aumentava. Uma noite fiquei surpreso, vendo o rumo sempre mais para leste, o barco quase incontrolável e o leme a 45º para bombordo! Claro que não era possível continuar assim, com previsão de onda em aumento e barco indo só para o contravento, sem contar a perda de velocidade com toda aquela resistência do leme.

Resolvi reduzir pano, rizando a grande e deixando-a bem chapada caçando o burro. Folgar um pouco o genoa também serviu. Desta forma, o centro velico, que é a resultante de aplicação de todas as forças do vento, ficou um pouco mais para proa, deixando o barco mais controlável. Por incrível que pareça, ganhamos até velocidade com a redução de pano. Isso por causa do leme, que trabalhando menos oferecia menor resistência.

Continuamos assim pelo resto da regata. O vento, acho, não superou mais os 18 nós, mas as ondas aumentaram. Em alguns momentos de rajadas intensas, o barco virava novamente sem controle. Então, usando a energia das ondas, colocávamos o barco com vento de alheta. Algumas milhas assim, depois novamente no rumo.

Claro que, com leme fazendo resistência, barco instável, rumo a zig zag e falta de auto piloto, atrasamos muito. Nesse ponto,  tenho que elogiar a tripulação. Apesar de ser a primeira experiência de uma travessia de quase todos os tripulantes, ninguém teve um só segundo de falha.

Enfim, avistamos Noronha na madrugada do terceiro dia. Chegamos na linha com todos os outros barcos, cujos tripulantes já se encontravam descansando e dormindo.

Acho que foi uma grande experiência de perseverança, de querer chegar a qualquer custo, além do estado do barco, uma vez verificadas as condições de segurança.

Obrigado à tripulação, excelente em todos os momentos, e dominando as emoções enquanto outros teriam desabafado. Espero que tenhamos a possibilidade de fazer ainda muitas milhas juntos.

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